quarta-feira, 22 de julho de 2009

Coma, a la vonté???


Um almoço pra você. Um almoço para três.
A grande diferença é a quantidade.
A comida que nos alimenta e nos faz viver, também realiza a reprodução.
Somos seres com o pensamento cultural de nos reproduzir, de perpetuar a espécie, plantar a nossa semente, cuidar de alguém que é um pedaço de você e outro alguém.
Esta criaturinha, por volta dos 5 meses precisará de comida, e para o resto da sua vida, irá comer para sobreviver.
A arvore genealógica só fez crescer durante as centenas de anos de existência humana. E o alimento que a alimenta, sabemos, pode estar comprometido. E assim caminham os acontecimentos atuais, catástrofes climáticas que prejudicam a produção natural de alimentos. Com a diminuição dos alimentos o que irá acontecer? Você terá o dinheiro necessário para comprar alimentos em uma época em que a oferta de alimentos vindo diretamente da terra será tão escassa que engenheiros estarão a usar uma espiga de milho para proporcionar, através da tecnologia, comida para o triplo, o quíntuplo de pessoas satisfeitas com uma espiga de milho?
Como eu, você acredita que tanto a população mundial teria que diminuir para deixar o sistema um pouco mais equilibrado? Não? Mas, até onde pode-se plantar? Podemos plantar em todos os pedaços de terra do mundo? Se isso acontecesse a população ia continuar com o mesmo número? Ou aumentaria?
Pois eu afirmo, aumentaria, como já vem aumentando, tanto pela qualidade de vida, dos idosos, quanto pela relativa facilidade da obtenção de alimentos. Muita gente, pouca comida, caos climático, guerra por terras, comida e água, eu sou muito otimista pra pensar no pior, mas se você não é, pode pensar em onde isso vai chegar, não é mesmo?

Viagem Negra




José de nascença, cego. De tudo que falam, ele ouve. Forma imagens de acordo com as descrições, mas precisa sempre mais do que isso, necessita tocar, sentir o cheiro, o volume do som.
Pois, foi difícil, e só Dona Joana sabe o quanto, fazer entender pétalas, terra, pedra, sabonete, espinhos, comida então, uma meleca. E era dessa meleca que José gostava, quanto mais pudesse sentir a comida, mais satisfeito ele ficava.
A partir de tanta curiosidade e gosto pelo paladar, é que José tornou-se um crítico gastronômico.
Junto ao crítico estava também um homem de postura ereta, ouvidos atentos, pensamento astuto, e um ar galante só dele.
Sua vida era feliz, ele gostava de estar solteiro, um rolo aqui, outro lá, muitos vindos do setor profissional, o que ele jamais desperdiçava.
Muitos amigos e amigas, festas, jantares, dançantes ou não, uma vida agitada, da qual às vezes, ele abria mão. E sim, era por querer.
Sentar em sua poltrona, tomar um vinho ou doses de whisky, ouvir variadas músicas, ou livros, fumar seu charuto, vez ou outra, cigarros. Deixava-se levar, pensar não queria, o difícil era conseguir.
As imagens, no entorpecer de uma sexta-feira a noite, chuvosa, vinham e iam, cores, brumas. Os sons que formavam sensações, ambientes.
Tudo era tão escuro quando em nada pensava, esse escuro que de sempre lhe acompanhou e sabia, seria seu companheiro fiel até o fim.
Desse escuro não sentia ódio, mas desespero, as imagens que formava desde a remota infância, sabia, não eram como as reais, eram só idéias unidas.
E quando em sua perna queimou a cinza de seu charuto esquecido de bater, se fez a dor, e com ela sentiu e viu imagens de que sua memória, não lembrara de tê-las formado. O que seriam aqueles cores incríveis, aquele toque macio em que pegava?
O quadril da mulher dançante, o champanhe do garçom que passava, a mordida no morango, o barulho do mar, aí sim estavam as lembranças. Mas então, o que foi aquele relâmpago de visões desconhecidas, só queria saber mais delas, sentir o corpo flutuar junto a elas, desligar a luz já desligada de seus olhos, e só apenas flutuar. Ah como desejava literalmente, morar no ar.
Iria relaxar um pouco mais, tentar novamente, mais uma dose, mais um charuto, sem dúvidas o faria. O que o perturbava, era a dúvida de ter ou não consigo, o cinzeiro.