quarta-feira, 22 de julho de 2009

Viagem Negra




José de nascença, cego. De tudo que falam, ele ouve. Forma imagens de acordo com as descrições, mas precisa sempre mais do que isso, necessita tocar, sentir o cheiro, o volume do som.
Pois, foi difícil, e só Dona Joana sabe o quanto, fazer entender pétalas, terra, pedra, sabonete, espinhos, comida então, uma meleca. E era dessa meleca que José gostava, quanto mais pudesse sentir a comida, mais satisfeito ele ficava.
A partir de tanta curiosidade e gosto pelo paladar, é que José tornou-se um crítico gastronômico.
Junto ao crítico estava também um homem de postura ereta, ouvidos atentos, pensamento astuto, e um ar galante só dele.
Sua vida era feliz, ele gostava de estar solteiro, um rolo aqui, outro lá, muitos vindos do setor profissional, o que ele jamais desperdiçava.
Muitos amigos e amigas, festas, jantares, dançantes ou não, uma vida agitada, da qual às vezes, ele abria mão. E sim, era por querer.
Sentar em sua poltrona, tomar um vinho ou doses de whisky, ouvir variadas músicas, ou livros, fumar seu charuto, vez ou outra, cigarros. Deixava-se levar, pensar não queria, o difícil era conseguir.
As imagens, no entorpecer de uma sexta-feira a noite, chuvosa, vinham e iam, cores, brumas. Os sons que formavam sensações, ambientes.
Tudo era tão escuro quando em nada pensava, esse escuro que de sempre lhe acompanhou e sabia, seria seu companheiro fiel até o fim.
Desse escuro não sentia ódio, mas desespero, as imagens que formava desde a remota infância, sabia, não eram como as reais, eram só idéias unidas.
E quando em sua perna queimou a cinza de seu charuto esquecido de bater, se fez a dor, e com ela sentiu e viu imagens de que sua memória, não lembrara de tê-las formado. O que seriam aqueles cores incríveis, aquele toque macio em que pegava?
O quadril da mulher dançante, o champanhe do garçom que passava, a mordida no morango, o barulho do mar, aí sim estavam as lembranças. Mas então, o que foi aquele relâmpago de visões desconhecidas, só queria saber mais delas, sentir o corpo flutuar junto a elas, desligar a luz já desligada de seus olhos, e só apenas flutuar. Ah como desejava literalmente, morar no ar.
Iria relaxar um pouco mais, tentar novamente, mais uma dose, mais um charuto, sem dúvidas o faria. O que o perturbava, era a dúvida de ter ou não consigo, o cinzeiro.

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